01 · Introdução
Em Não Venhas Tarde, o que mais me toca é a contenção. A narrativa apresenta um homem que procura outra mulher e uma companheira que conhece essa realidade. A dor e o ciúme estão presentes, mas o pedido que ela lhe dirige conserva a ternura.
É neste contraste que começa a minha leitura: entre aquilo que se sente e a forma escolhida para o expressar. Depois, a canção muda o lugar do medo. Quem parte receia que um dia o seu regresso já não aconteça a tempo.
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02
Aníbal Nazaré e João Nobre
Não Venhas Tarde tem letra de Aníbal Nazaré e música de João Nobre. A obra está documentada no repertório de Carlos Ramos, e o Museu do Fado inclui-a entre os seus grandes êxitos.
Autor teatral e letrista, Aníbal Nazaré desenvolveu uma atividade ligada ao teatro de revista e à canção. O seu percurso inclui também a letra de Tudo Isto É Fado. Este contexto ajuda a enquadrar um autor cujas palavras encontraram expressão tanto no palco como na voz dos fadistas.
Em Não Venhas Tarde, a narrativa coloca diante de nós duas experiências em tensão: a de quem parte, reconhecendo a sua própria conduta, e a de quem fica, sabendo para onde ele vai. É a partir dessa relação, apresentada nos versos, que desenvolvo a minha reflexão.
03
A contenção das emoções
A companheira conhece a presença de outra mulher. Apesar da dor e do ciúme, contém a maneira como os manifesta e pede-lhe que não venha tarde.
Na minha leitura, esse gesto revela o esforço de dar uma direção ao que se sente. A emoção permanece, mas a resposta não se esgota nela. Entre o sofrimento e a forma como escolhe expressá-lo, reconheço um exercício de contenção: a emoção não desaparece, mas é orientada perante algo que, naquele momento, assume maior importância.
Foi neste sentido que associei a narrativa à transformação das emoções: à capacidade de as conter e orientar em função de um fim que se considera mais importante do que a sua expressão imediata. É aí que encontro, nesta personagem, um exercício de maturidade emocional.
Esta leitura nasce do gesto particular que a canção apresenta. Não conhecemos toda a relação, nem precisamos de lhe acrescentar uma história. O que me prende é a tensão que os versos deixam ouvir: a dor existe, o ciúme também, e ainda assim o pedido chega com ternura.
Ao cantar, procuro dar expressão a essa contenção. A intensidade está tanto no sentimento como na forma de o guardar nas palavras.
04
A ironia do regresso
No desfecho, o homem confessa o medo de que um dia ela lhe peça que não venha cedo. Surge então a possibilidade de regressar e descobrir que já é tarde demais.
O tempo ganha aqui outro significado. Chegar cedo ou tarde deixa de ser apenas uma questão de horas: torna-se a medida incerta de um regresso.
É essa ironia que me toca. Ao longo da canção, ouvimos o pedido de quem fica; no final, escutamos o receio de quem parte. A contenção da companheira encontra um contraponto no medo que ele próprio exprime.
Não sabemos o que acontecerá depois. A força do desfecho está nessa possibilidade em aberto — a de um regresso que, mesmo antecipado, possa já não chegar a tempo.
05 · Ver e ouvir
Pó d’Fado · Não Venhas Tarde
Não Venhas Tarde em Pó d’Fado
Depois do episódio educativo dedicado a Aníbal Nazaré, volto a uma letra sua nesta vertente emocional de Pó d’Fado.
Canto um excerto de Não Venhas Tarde e partilho a minha leitura sobre a contenção e a transformação das emoções. O percurso da reflexão acompanha o da canção: começa na dor e no ciúme contidos e chega ao medo de que o tempo tenha mudado o sentido do regresso.
Vê e ouve o episódio de Não Venhas Tarde.
Ver no YouTube06 · Fontes e enquadramento
Créditos e fontes
Obra: Não Venhas Tarde
Letra: Aníbal Nazaré
Música: João Nobre
Interpretação e reflexão neste episódio: Ana Margarida
Projeto: Pó d’Fado — À descoberta da alma do Fado
A reflexão apresentada neste artigo corresponde à minha leitura artística da narrativa da canção.
- 01Abrir
Universidade de Aveiro
Programa de Camané e Mário Laginha, Aqui Está-se Sossegado
Identifica expressamente Aníbal Nazaré como autor da letra e João Nobre como autor da música de Não Venhas Tarde.
- 02Abrir
Museu do Fado
Carlos Ramos
Documenta a presença de Não Venhas Tarde no repertório do intérprete, incluindo-a entre os seus grandes êxitos.
- 03Abrir
DramaOnline
Aníbal Nazaré
Enquadra a atividade teatral do autor e identifica a sua ligação à letra de Tudo Isto É Fado.
07 · Continuar à descoberta
Outras histórias.
Outras memórias.
Pesquisa, contextualização e leitura artística: Ana Margarida
Pó d’Fado — À descoberta da alma do Fado.
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